
Protocolo Identidade #001
Eu não separo o humano do sistema. Eu observo onde o sistema falha em conter o humano. Falando asneira #001. Um pouco de pensamentos, pesquisas, antropologia, sociologia, ciência e tecnologia... Penso mais na provocação!
Autor: Pâmela Peixoto
05/04/2026 ás 20:38
A rua nunca foi só um espaço, na minha visão. Ela é outra coisa, mais difícil de segurar com palavras. É um lugar onde (na maioria das vezes) nada se mantém por muito tempo. Tempo, abrigo, comida, reconhecimento… tudo aquilo que supostamente ajuda alguém a se entender como alguém simplesmente não funciona de forma contínua ali. E sem essa continuidade, fica difícil até se reconhecer no próprio corpo.
Quando eu olho para essas pessoas, não vejo uma falta de identidade. O que vejo é a dificuldade de manter qualquer coisa estável o suficiente pra virar identidade. Porque identidade, no fim, depende de repetição. Um nome que volta, um lugar que se reconhece, relações que duram mais que um instante. Na rua, isso se quebra o tempo todo. Um dia não garante o outro. O corpo muda, reage diferente. A memória não organiza, só junta pedaços soltos.
Mesmo assim, essas vidas ganham nome, classificação, viram dado. “População em situação de rua”, “dependência química”, “vulnerabilidade extrema”. Eu entendo que isso ajuda a contar, a organizar políticas, a distribuir recurso. Mas também reduz. Porque transforma algo que é instável por natureza em categorias que parecem fixas. O que não se sustenta na experiência acaba sendo forçado a se sustentar na linguagem.
E isso não é neutro.
Quando a vida vira número, dá pra olhar de longe. O número não exige convivência. Ele organiza sem envolver, descreve sem tocar. Só que, nesse processo, o que é variação constante desaparece. Fome, uso, abstinência, violência, deslocamento… tudo isso se dilui numa média que não representa o que acontece de fato.
A rua não funciona por média. Ela funciona no limite.
O uso de substâncias, por exemplo, não cabe bem nessa ideia de escolha simples ou desvio isolado. Muitas vezes, ele aparece como uma forma de regular o que não tem regulação nenhuma por fora. As substâncias mexem com dor, percepção, tempo. Criam estados que, mesmo instáveis, dão algum tipo de pausa, um respiro, uma sensação breve de continuidade. Não é estabilidade. É suspensão.
Só que é um equilíbrio muito frágil.
O corpo entra em ciclos que não seguem uma lógica organizada. Uso e abstinência não acontecem como uma sequência limpa. Eles respondem ao que aparece: frio, cansaço, violência, ausência de tudo. A substância não resolve a instabilidade, ela entra nela, muda algumas coisas por um tempo e, ao mesmo tempo, agrava outras.
Por isso, tentar explicar tudo isso como se fosse coerente o tempo todo não dá conta. A gente tende a procurar padrão, causa, sequência. Mas o que aparece ali é interrupção, sobreposição, quebra. Quando tentamos organizar isso numa narrativa linear, ou a gente falha ou simplifica demais.
E aí eu fico com uma pergunta que não sai da cabeça: o que acontece com a identidade quando não existe condição pra ela se repetir?
Muita gente vai dizer que ela se perde. Mas não sei se é bem isso. Porque falar em perda dá a ideia de que algo já estava formado e foi tirado. Em muitos casos, parece que nem chega a se formar de verdade. Fica num estado de variação constante, sem tempo suficiente pra se fixar.
Isso não quer dizer que não exista subjetividade. Existe, e muita. Mas ela não se organiza numa forma estável que a gente consiga reconhecer como identidade contínua.
Ainda assim, existe uma insistência em nomear, definir, encaixar. Só que essa necessidade não vem da experiência em si. Ela vem de quem observa. Quem mede precisa de estabilidade pra funcionar. Quando ela não existe, acaba sendo criada artificialmente.
É aí que a distância aparece.
Quem está em condições mais estáveis tende a olhar pra essa instabilidade como se fosse falha individual. Falta de controle, desvio, incapacidade. Só que essa leitura ignora o principal: a ausência de condições mínimas pra sustentar qualquer continuidade.
Estabilidade não é só esforço individual. Ela depende de uma rede inteira: material, social, simbólica, que permite repetição. Quando essa rede não existe, ou se rompe o tempo todo, não tem como manter uma linha contínua de existência.
E sem continuidade, fica difícil falar em identidade como algo reconhecível.
O que eu vejo são estados. Estados que mudam, se misturam, desaparecem antes de se firmar.
A rua não produz só vulnerabilidade. Ela produz uma instabilidade que não vai embora.
E quando essa instabilidade dura, ela não atinge só o corpo.
Ela atravessa a possibilidade de alguém conseguir, de fato, se manter ao longo do tempo.
Se identidade depende de permanência, então a rua é um sistema de dissolução!!
Na sociedade em que vivemos, ser alguém exige continuidade. Quem não consegue se repetir acaba desaparecendo como identidade. Mas existe algo ainda mais complexo: mesmo quem se repete, como as pessoas em situação de vulnerabilidade e moradores de rua, até chega a aparecer em alguns momentos, mas é esquecido em milésimos de segundo e frequentemente reduzido à condição de indigente. Pro sistema, essas pessoas não tem identidade, são apenas números.




A visibilidade não é prova de existência. É prova de acesso.
*Desenho de Pâmela Tauana
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