black blue and yellow textile

Talvez, talvez e talvez...

Talvez várias coisas, talvez só o que penso. Novamente sobre sumiços, processos, reflexões e mais algumas asneiras pessoais.

Autor: Pâmela Peixoto

11/08/2026 ás 21:49

Depois de alguns meses, estou voltando a escrever aqui. Na verdade, nunca parei de escrever, só não tive tempo de corrigir os textos para trazer a este blog. Continuo com as pesquisas de identidade, em breve irei escrever mais um pouco sobre. Mas, para não deixar esse meu espaço às minguas, resolvi vir falar sobre uma reflexão que venho fazendo desde o início deste ano.

Penso muito sobre o que eu crio, e fiquei um pouco confusa, pois no segundo semestre de 2025 fiz duas obras, uma sobre KEMET e outra sobre Iansã. Na minha cabeça estava fazendo sentido, pois ambas falavam sobre os mortos, ancestralidade e energias. porém depois me pareceu que só criei essas obras porque já estavam paradas há um tempo e precisava finalizar, e que aquilo não representava mais minha poética. Isso é algo muito complexo e pessoal. Eu gosto das obras, mas não para uma exposição ou para mostrar a terceiros; gosto delas para mim, pois têm um significado diferente. Mas, ao colocá-las ao lado das outras obras que já produzi, não senti sintonia, conexão nem semelhanças.

Eu achava que isso fosse um problema, mas depois percebi que não é! Ainda tenho outra obra com essa temática egípcia, e que é algo que eu amo fazer e pesquisar. Porém, é algo particular e estritamente pessoal.

E fiquei pensando sobre como o sistema da arte às vezes nos limita para que fiquemos ali dentro de uma caixa, nos forçando a ter que sustentar apenas um trabalho, um tema, uma técnica, ou até mesmo aquela coisa de "seu trabalho tem que se sustentar apenas na teoria", senão não é arte. Hoje em dia vale mais a teoria, o abstrato da palavra, do que a obra em si.

A arte contemporânea tem uma """"hiperintelectualização"""". Os artistas estão dependendo de um texto/teoria como "muleta" para a obra de arte fazer sentido.

Para o artista emergente, isso é algo complexo e que pode causar uma certa ansiedade. Até mesmo para artistas com uma trajetória maior, e que não têm esses "pré-requisitos" do mundo da arte. Às vezes essa parte teórica é tão complexa que queremos resumir... ou ela é algo nosso que não conseguimos expressar em palavras, e é por isso que pintamos.

As galerias, museus, editais e curadores estão cada vez mais utilizando essa linguagem. Creio que o objetivo principal disso tudo seja para gerar um prestígio institucional no mercado capitalista. Isso tem vários problemas: o primeiro deles é a segregação do público; uma obra não pode só ter valor com base na teoria, só ser uma obra após a pessoa ler um texto curatorial de 603 palavras. Isso anula todo o visual em si da obra. E quem é mais leigo não se sente confortável com esse "tipo de arte", sentindo-se inferior por não "entender o que está lendo/vendo". Outro ponto seria a tal da validação; parece que o artista precisa provar que é intelectual só por ler certos autores, e acaba virando uma competição bibliográfica.

Fico com algumas provocações em mente a respeito dessa nossa arte contemporânea:

  1. Por que então os artistas (plásticos/visuais principalmente) não simplesmente escrevem? Já que querem ilustrar o pensamento, e o conceito tem mais peso que a própria obra em si, poderiam muito bem apenas escrever.

  2. Isso pode ser uma forma de mascarar a falta de pesquisa técnica, domínio/uso de suportes e a presença física ali. A teoria acaba virando um escudo protetor contra a crítica formal.

Por fim, sabemos que o texto é algo mais mensurável; o visual é mais imprevisível, não tão fácil de interpretar, traduzir... e talvez seja mais fácil para as instituições utilizarem esses métodos. Antes de ser artista, precisa ser um pesquisador quase acadêmico impecável. Isso vira uma pressão! Não estou dizendo que a pesquisa é inútil, pelo contrário, aprecio e faço uso, mas precisa haver um equilíbrio, e que pensemos em todas as camadas da população.

A arte já é elitizada o suficiente, não precisamos de mais limitações!

A teoria precisa complementar a obra, e não sustentá-la; o processo, a obra, precisa ter presença e autonomia própria, não ser apenas uma "prova" da tese escrita. Não precisamos dessa burocracia acadêmica para que a obra faça sentido. A poética individual que deve ser o sentido da obra.

E foi a partir dessas reflexões que eu me vi perdida no mundo da arte. Indecisa com minhas obras, com minha poética, achando que estava fazendo errado só por ter “saído da minha poética”.

Mas depois pude entender. E vi que, se ficarmos muito imersos no que essas instituições querem, não vamos produzir o suficiente. Essa teoria toda esgota nossa energia. Ou melhor, a minha energia. Continuo pesquisando, mas além disso, busco produzir e refinar as técnicas que mais gosto. Não vou deixar que essa burocracia acadêmica sufoque minha estética visual.

A criação não precisa de amarras, ela precisa de erros e acertos, acidentes, de mistério. Ter que, acima disso tudo, ficar traduzindo todo esse meu sensível para o "racional" que querem, consome muito de mim. Eu tenho uma boa bagagem visual, muitas ideias e esboços. Então a pesquisa seria para complementar, não ser o pilar central do que eu estou criando. Não quero transformar meu trabalho em um artigo. Não quero que a teoria vire uma gaiola que me limita onde eu posso ou não posso ir ou fazer.

Talvez eu esteja completamente errada. Talvez eu mude de opinião daqui a alguns anos (ou semanas). Mas, na minha visão de hoje, prezo por isso.

Hoje foi quase que um desabafo esse blog, hahaha.

Talvez seja.

*E Talvez os críticos e intelectuais da arte vejam isso e falem que estou completamente errada. E sim, eles vão achar isso, afinal, o próprio sistema vive dessa validação. Sinceramente, eu não ligo.

Talvez, talvez e talvez...

*Kemet, de Pâmela Peixoto

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